Archive for the 'Patch Work' Category

08
dez
08

Para pôr na lista

Acabamos agora a reunião de pauta que foi digamos… amarela. E agora atualizo o blog para perguntar o que acharam do caderno de hoje. A idéia foi trazer diálogos entre filmes e situações que observamos na cidade. Os filmes que estiveram”em cartaz” por aqui foram O homem que copiava, I Clowns, O amor é contagioso, Chegadas e partidas e O senhor dos anéis. Vale a pena conferir nas bancas hoje e aqui no blog na quinta-feira.

Para completar, deixamos a indicação do livro que é considerado fundador do New Journalism, e que tem tudo a ver com o caderno. Se trata de um romance não-ficcional, escrito na década de 60 sobre o assassinato de uma família no Kansas. É uma narrativa intrigante e de tirar o fôlego: A Sangue Frio, de Truman Capote. Vale a pena pôr na lista de férias. Abaixo, criador e criatura.

capote1

sangue-frio1

Até breve outrapauteanos

15
out
08

Confissão

Pessoal, felizmente essa semana estamos com o trabalho adiantado… obrigado aos oficineiros que colaboraram!

Na última reunião de pauta o Sílvio recomendou o site Texto Vivo. Fica aí a dica para o pessoal.

Mas estou falando sobre isso pra enrolar o verdadeiro motivo desse post. Eu quero é fazer uma confissão: eu cometi um atrocidade, quase um assassinato. Foi contra o poema “Eu Etiqueta” do Drummond. O usamos na última sessão Pach Work mas devido a falta de espaço eu precisei fazer a maldade de o sintetisar. Então, para me redimir com os fãs do Carlos, eu posto aqui o poema completo. É de dar taquicardia, excelente!

Eu Etiqueta (Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Até breve pessoal…

25
set
08

Vale a pena ler de novo

Vocês devem ter reparado que já há algumas edições temos uma seção chamada Patch Work, trazindo, é a “colcha de retalhos” do Outra Pauta, os autores que fundamentam, inspiram e ensinam estão dando as caras nessa seção.

Resolvemos trazer os ilustres aqui para o blog também. É mais ou menos como “Um vale a pena ler de novo”, e nesse caso vale mesmo.  A idéia é que os visitantes comentem os textos, já que o blog possibilita isso… Os primeiros convidados foram Torquato Neto e Raoul Vaneigem, na 18ª Edição, olha o que eles dizem:

“Quando eu a recito ou quando eu a escrevo, uma palavra, um mundo poluído – explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalho em lascas de corte e fogo e morte (como napalm) espalham imprevisíveis significados ao redor de mim: informação. Informação: há palavras que estão no dicionário e outras que não estão e outras que eu posso inventar, inverter. Todas juntas e à minha disposição, aparentemente limpas, es~tao imundas e transformaram-se, tanto tempo, num amontoado de ciladas.

Uma palavra é mais do que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo e portanto explodem, bombardeadas. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma; qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam nos hospícios. No princípio era o verbo e o apocalipse, aqui será apenas uma espécie de caos interior tenebroso da semântica. Salve-se quem puder”.

(Torquato Neto na Geléia Geral de 8 de outubro de 1971)

“(…) ocupar espaço, amigo, estou sabendo, como você, que não está podendo haver jornalismo no Brasil e que – já que não deixam – o jeito é tentar, não tem outro que seja desistir. E eu sinceramente acredito que não está na hora de desistir: ou a gente ocupa e mantém a porra do espaço, para utilizá-lo, pra transar, ou a gente desiste. Eu prefiro o sacrifício”.

(trecho de uma carta de Torquato Neto a Almir Muniz reproduzida em “Torquatália – Do lado de Dentro” Ed. Rocco)

“A memória é uma ilha de edição”

(Mensagem gravada na secretária eletrônica do poeta Waly Salomão – meados da década de 90)

“A perspectiva da rendibilidade a todo o custo é a cortina de ferro dum mundo vedado pela economia. A perspectiva de vida, por seu turno, abre-se para um mundo onde tudo existe com vista a ser descoberto e criado. Ora acontece que a instituição escolar pertence ao mundo dos negócios, o qual pretende administrá-la cinicamente, deixando até de sentir-se perturbado pelo velho formalismo humanitário. Resta saber se alunos e professores se deixarão reduzir à função de engrenagens lucrativas, pois nada de bom prevendo uns e outros nessa gestão dum universo em ruínas a que são convidados, eles bem podem preferir aprender a viver, em vez de se economizarem.”

(Raoul Vaneigem, in “Aviso aos alunos do básico e do secundário” Editora Antígona)

Ah! Ainda hoje temos a edição sobre a Saúde disponível em PDF, vale a pena voltar aqui de novo.

Até logo!