Archive for the 'Jornalismo Ambiental' Category

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Referência obrigatória

Comentamos em nossa reunião semanal da oficina sobre o trabalho do jornalista Washington Novaes – um exemplo de dedicação ao jornalismo ambiental que é pioneiro em nosso país. Em agosto do anos passado, mais especificamente num domingo – dia 12 daquele mês – publiquei na Gazeta do Paraná uma entrevista Washington Novaesexclusiva com ele e que reproduzo aqui neste espaço ,para disponibilizá-la mais uma vez para quem se interessa pelo que o jornalismo pode significar enquanto prática para além dos pragmatismos imediatistas de alguns setores do mercado de mídia e, para mais além ainda, do jogo de vaidades e poder da academia. Boa leitura.

Entrevista publicada em 12/08/2007

Washington Novaes: um sábio senhor de coração verde

Aos 73 anos de idade ele é reconhecido internacionalmente. Entre seus trabalhos mais conhecidos está o documentário “Xingú: Terra Ameaçada” e a série “Desafio do Lixo”

 Silvio Demétrio

Especial para o Caderno de Domingo

Está indo ao ar todos os domingos deste mês (agosto/2007) a partir das 18:00 horas pela TV Cultura o documentário “Xingú: Terra Ameaçada” dirigido e produzido pelo jornalista Washington Novaes. Obrigatório não só para quem se interessa por questões indígenas e ecologia, mas para qualquer um que busca perspectivas de construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa para o Brasil e o mundo. Novaes é sinônimo de jornalismo e militância ambiental. “Xingú: Terra Ameaçada” é o resultado de um retorno à reserva indígena na qual Washington gravou em 1985 outro documentário, “Xingú: Terra Mágica”. Na época a produção foi exibida pela extinta Rede Manchete de TV. Fez história no jornalismo brasileiro. Washington Novaes hoje tem 73 anos e é reconhecido internacionalmente. Entre seus trabalhos mais conhecidos também está o livro-reportagem que deu origem ao documentário de 1985, “Xingú: Uma Flecha Atravessada no Coração” e a série “Desafio do Lixo”, produzida também para a TV Cultura. Atualmente Novaes mora em Goiânia e deu entrevista exclusiva para a Gazeta do Paraná por telefone. Novaes fala sobre sua paixão pela cultura dos índios, jornalismo, crises da contemporaneidade e política ambiental.

 

Gazeta do Paraná – Sua relação com as questões que envolvem o meio ambiente e a vida no Xingú lhe trouxe reconhecimento como jornalista e documentarista dentro e fora do país. O que o levou a trabalhar com esse tema?

Washington Novaes – A minha relação com o Xingú é uma coisa que vem comigo há 30 anos. Desde o começo me encantei muito com toda aquela vida, quando passei a ir para aquela região para entrar em contato com as tribos que vivem por ali, os Maué, por exemplo, foram os primeiros. Aprendi muito com esse contato. Aprendi que a organização social e política deles é um sistema baseado na auto-suficiência. Imagine você viver numa sociedade onde se pode nascer e morrer sem nunca ter precisado nem dar e, muito menos ainda obedecer a ordens. Isso nos coloca no plano das utopias mesmo. Entre os índios o chefe é o sábio. Ele não dá ordens. Cada um é auto-suficiente porque a tribo é uma sociedade de informação aberta. Não é como o mundo do homem branco onde a informação se torna propriedade de alguns que a exploram, o que gera desigualdade. Não, todos compartilham do conhecimento e por isso não se precisam dar ordens. Porque tudo se resolve segundo um saber que é coletivo. Acho que num momento de profundas crises como o que vivemos nós deveríamos olhar para essas culturas com mais atenção e aprender com elas. Isso me encantou, essa perspectiva de uma vida mais orgânica das relações do homem com ele mesmo e com a natureza. E continua me encantando. Faço o que me toca o coração.  E o que me toca o coração é que essas questões hoje estão no centro das discussões sobre os principais problemas no mundo.

 

Gazeta do Paraná – Desde a realização de “Xingú: Terra Mágica” passaram-se 22 anos. Em que situação hoje estão esses índios. Como você os reencontra em “Xingú: Terra Ameaçada”?

Washington Novaes – Bom, o Xingú é um lugar muito privilegiado. Sua área é praticamente proporcional ao tamanho da Bélgica por exemplo. É uma Bélgica de vegetação e biodiversidade preservada. Os dramas que hoje são vividos pelos cerca de 5000 índios do Xingú vêm de uma situação em que essa ilha de preservação encontra-se cercada de grandes áreas de desmatamento que acontecem na região noroeste do estado do Mato Grosso em função do plantio de soja e da pecuária também. Essa condição cria muitos conflitos em função do contato com o homem branco e sua cultura. Um deles, por exemplo, é que hoje as gerações mais jovens querem se incluir nas novas tecnologias, nas coisas da cultura do homem branco. Isto faz com que os jovens índios de hoje não queiram mais ser pajé. E a figura do pajé dentro da tribo é muito importante porque é ele quem faz a ligação do mundo dos vivos com o mundo dos espíritos. O mundo todo, a vida toda dos índios é regida por espíritos. Essa nova condição ameaça a sobrevivência da sua cultura porque se o índio for separado dessa sua relação com os espíritos dos rios, das matas, dos animais, ele perde a sua essência. Ele deixa de ser índio. Isso é mostrado nesse documentário que resultou do reencontro com os índios com os quais eu havia conversado em “Xingú: Terra Mágica”.  Os mais velhos das tribos temem por isso. Numa das comunidades, por exemplo, existiam três pajés – hoje existe apenas um. Há também o problema das hidrelétricas que estão sendo construídas na região. Ao todo é prevista a construção de seis grandes barragens, duas já estão em construção e os índios estão muito preocupados com isto, indignados mesmo. Temos que nos perguntar a quem esses empreendimentos vão beneficiar. Certamente que há a necessidade de investimentos na área de produção de energia. Mas nesse caso, a crise energética do país é certamente um aspecto secundário. O que a gente pode ver é que prevalecem os interesses na região das grandes corporações de exploração de ferro gusa e de alumínio que são os principais interessados em geração de energia naquela região. Com relação a essas e todas as outras hidrelétricas o que temos de nos perguntar é se precisamos necessariamente tanto dessa energia, a ponto de ameaçar outras formas de recursos como os que são representados por toda a região do Xingú – a biodiversidade, a cultura, etc. Acho que seria um erro o Brasil abrir mão desses recursos que a longo prazo devem ser incluídos na pauta política do país. Vivemos num modelo de desenvolvimento que perdura há 500 anos de exportação de produtos primários, sem valor agregado. Seria um grande erro trocar a biodiversidade por soja, porque este tipo de produção não nos faz sair do mesmo lugar. Patrimônios nossos como o  Xingú, o Pantanal e a Amazônia concentram 10% da biodiversidade de todo o planeta. Temos também 12% de toda a água potável superficial do planeta. É um recurso que pode ser explorado num modelo de desenvolvimento que agregue valor ao que exportamos e que mude nossa situação no contexto da economia mundial. 

 Gazeta do Paraná – É possível pensar a relação entre preservação e progresso segundo uma perspectiva em que uma coisa não anule a outra?

Washington Novaes – Aqui no Brasil se gosta muito de olhar para os americanos e o que eles fazem como exemplo. Já que é assim, temos um exemplo histórico de como preservação e desenvolvimento não se anulam, de como isto pode se dar. Quando aconteceu o segundo grande choque da crise do petróleo em 1973 os americanos investiram pesado num programa de readequação do gasto de energia no país fundamentado numa proposta de eficiência energética. Em resumo, mantiveram-se os mesmos níveis de gasto de energia no país e isto não foi obstáculo para um surto de desenvolvimento da ordem de 40% de crescimento em sua economia.O que eu penso é que não dá para continuar vendo o meio ambiente como um assunto separado dos outros. Qualquer ação que se faça incidir sobre ele não é separada das outras dimensões que sustentam nossa vida. Quando se mexe com o meio ambiente existem conseqüências e impactos no solo, na água, no ar que respiramos, enfim, em tudo.  Isso significa que o meio ambiente é ao mesmo tempo um assunto que tem implicações políticas, sociais, econômicas e culturais. O problema começa com as decisões que se tomam como se essas dimensões fossem separadas, como se elas não tivessem nada a ver umas com as outras. Tomam-se decisões sem perceber as conseqüências num contexto mais amplo de integração das várias dimensões da vida. O meio ambiente deve estar no início e no centro das políticas públicas e privadas porque é ele que integra esses diferentes níveis. A maneira como o índio organiza a sua vida tem muito a nos ensinar nesse sentido. Nunca se pergunta quem é que vai arcar com os custos das decisões políticas em nossa sociedade.  A comunidade tem que levar essas coisas em consideração. Agora,… Isto se mostra ameaçador para muita gente porque implica numa reavaliação e reconstrução de suas visões de mundo. Implica numa mudança na maneira como os governos tratam das questões políticas, ao mesmo tempo numa mudança na maneira pela qual os empresários colocam suas necessidades de lucro a curto prazo e também, num contexto mais geral, em relação à mídia mesmo, porque existe a necessidade urgente de uma mudança de visão de mundo dos jornalistas e de quem trabalha com informação.

 

 

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