20
ago
08

Ainda hoje…

Quarta-feira e começa a correria pra fechar a próxima edição. Hoje,  aqui no blog, 18 horas ,sai a lista dos acadêmicos que  formarão a 2ª turma do Outra Pauta. Foi uma tarefa difícil, mas estamos felizes com o resultado.

Pra inspirar a tarde deixamos uns fragmentos de um texto do Frei Betto, “Por que escrevo?”, pergunta que todo bom jornalista, na lapidação diária de palavras, já se fez. E que o autor responde lindamente.

Por que escrevo?

por Frei Betto (fragmentos, grifos nossos)


[…] Escrevo para lapidar esteticamente as estranhas forças que emanam do meu inconsciente. Aos poucos, fui descobrindo que nada me dá mais prazer na vida do que escrever. Condenado a fazê-lo, tiraria de letra a prisão perpétua, desde que pudesse produzir meus textos. Aos candidatos a escritor, aconselho este critério: se consegue ser feliz sem escrever, talvez sua vocação seja outra. Um verdadeiro escritor jamais será feliz fora deste ofício.


Escrevo para ser feliz. Bartheanamente, para ter prazer. Sabor do saber. Tanto que, uma vez publicado, o texto já não me pertence. É como um filho que atingiu a maturidade e saiu de casa. Já não tenho domínio sobre ele. Ao contrário, são os leitores que passam a ter domínio sobre o autor. Nesse sentido, toda escritura é uma oblação, algo que se oferta aos outros. Oferenda narcísica de quem busca superar a devastação da morte. O texto eterniza o seu autor.

Escrevo também para sublimar minha pulsão e dar forma e voz à babel que me povoa interiormente. A literatura é o avesso da psicanálise. Quem vai para o divã é o leitor-analista. Deitado ou recostado, ouve nossas confidências, decifra nossos sonhos, desenha nosso perfil, apreende nossos anjos e demônios. Por isso, assim como os psicanalistas evitam relações de amizade com seus pacientes, prefiro manter-me distante dos leitores. Não sou a obra que faço. Ela é melhor e maior do que eu. No entanto, revela-me com uma transparência que jamais alcanço na conversa pessoal. Tenho medo do olhar canibal dos leitores, como se a minha pessoa pudesse corresponder às fantasias que forjam a partir da leitura de meus textos. Tenho medo também de minha própria fragilidade.


O texto tece o tecido de minha couraça. Com ele me visto, nele me abrigo e agasalho. É o meu ninho encantado. Privilegiado belvedere do qual contemplo o mundo. Dali posso ajustar as lentes do código alfabético para falar de religião e política, de arte e ciências, de amor e dor. Recrio o mundo. Por isso, escrever exige certo distanciamento.


Escrever é cortar palavras e modificar frases.


[…] Escrevo, enfim, para extravasar meu “sentimento de mundo”, na expressão do escritor Carlos Drummond de Andrade. Tentar dizer o indizível, descrever o mistério e exercer, como artista, minha vocação de clone de Deus. Só sei dizer o mundo através das palavras. Só sei apreender este peixe sutil e indomável – o real – através da escrita. É minha forma de oração.


[…] Escrevo, enfim, porque não sei fazer outra coisa nem vejo motivo para deixar de fazê-lo.


Ainda assim, prossigo me perguntando: por que escrevo? E tenho ânsias de confessar que, no fundo, é para impedir que se cure a loucura que, por trás dessa aparente normalidade, faz de mim um homem embriagadoramente alucinado.

E você que passa aqui pelo blog… Por que escreve?

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1 Response to “Ainda hoje…”


  1. 21, agosto 2008 às 6:11 pm

    Escrever é uma forma de se eternizar.. no meu caso, como nunca encontrei alguem em quem pudesse me espelhar diretamente, escrever significa mostrar como se faz, e deixar aos que virão exemplos do “sim” ou do “não..”

    Evandro Paulo


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