09
maio
08

na rua Carlos Gomes – mais uma vez

Segue abaixo a matéria que a aluna Bruna Hissae produziu para a edição do dia 05 de maio último e que acabou não saindo na versão impressa do Outra Pauta.

SE ESSA RUA FOSSE MINHA…

 

Bruna Hissae

Jornalismo- Unipar

 

Para quem chega a Cascavel pelo trevo da Carelli, e segue rumo a Avenida Brasil, logo de cara se pergunta se aquele é o centro da cidade. Duas vias paralelas, cada uma com duas faixas, divididas por um jardim esquisito, mal cuidado com algumas passagens mal planejadas que fazem que o pedestre tenha que andar metros para conseguir atravessar, com segurança, de um lado para o outro. Não fosse às divisões das ruas e o tráfego caótico nos horários de rush, o que mais chama atenção nesse trajeto, que liga o Jardim Universitário ao centro da cidade, é que existe vida própria quando o assunto é o comércio.

“Na verdade, eu sei que têm os camelôs, mas não tinha reparado que havia tantas outras coisas nessa rua”, confessou uma declarada compradora e freqüentadora dos camelôs.

Esse comentário só surgiu depois que eu lhe informei que é possível encontrar mais de quatro agências de banco, mais de dez farmácias, três mercados, uma grande variedade de lojas de veículos usados. Sem contar que nos atacados de roupa, acessórios, sem mencionar as lojas que concertam aparelhos eletrônicos, as que vendem parafernálias para carro, os postos de combustíveis. E é claro que não poderia deixar de mencionar os bares, que estão espalhados por toda a região, e quanto mais perto da universidade e da Avenida Brasil se chega, em maior quantidade eles se mostram.

“Não tinha parado pra pensar na continuidade da avenida, mas agora é que me dou conta. Não gosto muito de passar por aqui, sabe? E quando passo não fico reparando”, complementou uma garota com olhar desconfiado, olhando sempre para trás e me fazendo jurar que a foto dela não estamparia a matéria.

Estávamos entre a Avenida Brasil e a Rua Rio Grande do Sul, mais precisamente paradas na esquina da única rua de mão inglesa da cidade. Em uma quarta-feira agradável fomos dar uma volta nas duas primeiras quadras sentido bairro e nas duas últimas sentido centro. Vestidas como quaisquer jovens normais, calça jeans, blusinha básica e tênis, saí para desbravar os mistérios daquela região acompanhada de quem já conhecia o local.

Ela era cética.

“Não gosto dessa parte da cidade. É um lugar que me dá medo. Já ouvi tantos comentários sobre esses prédios, essas ruas, que nunca passaria por aqui desacompanhada a noite”, dizia ela. Batendo com o dedo indicador nos lábios e com um olhar de quem busca alguma lembrança para me explicar de onde vem a repulsa por aquelas quadras, ela não chegava a lugar algum.

Descendo a Rua Rio Grande do Sul não é difícil reparar que do outro lado da rua existe uma estrutura queimada, mas é fácil assimilar que aquela parte da quadra lembra um lugar abandonado. Seguindo devagar, conversávamos sobre assuntos diversos, enquanto observamos os compradores. No primeiro posto da Rua Barão do Cerro Azul, a ausência de frentistas e o pátio vazio surpreendeu as duas. Desde quando ele estava vazio era a discussão da vez. Passando por algumas lojas vazias e por algumas em que mesmo aberta não havia ninguém comprando e atendendo, me dei conta que não tinha perguntado a ela se alguma vez já fez compras por ali. A resposta veio como um furacão em forma de palavras.

“Para ser sincera, eu não compro e acredito que os comerciantes devem perder muito. A sensação que eu tenho ao passar por aqui é péssima, não conseguiria comprar nada. Quando ando por essas ruas parece que estou em outro país.”

Constrangida com a sinceridade da resposta decidi seguir a diante.  A única loja que tinha movimento era a de instrumentos musicais. Caixas de som pra fora e o atendente com cara de sofredor, com o violão na mão, parecia nos censurar com o olhar. Naquele momento eu tive a sensação de que eu não era o público alvo daquela loja. Meio envergonhadas resolvemos subir novamente a rua de mão inglesa, pois chegamos à conclusão que a outra quadra, por se tratar de um posto, não nos acrescentaria em nada.

Analisando as partes do prédio da esquina, a composição da imagem, com uma árvore e com a sujeira da parede, parecia que não era uma área tão nobre. Se seguíssemos em frente, mas algumas quadras, estaríamos na igreja símbolo da cidade e a questionei se aquele espaço algum dia seria atrativo para ela. E parecia que a resposta estava na ponta da língua.

“A rua de baixo me chama a atenção, ela é mais moderninha, o contraste é muito grande! Acho que para essa rua me surpreender precisaríamos de alguns baldes de tinta e alguns arquitetos. Mas vou ter que confessar que seria muito melhor se reconstruíssem toda essa área. Derrubar tudo e fazer tudo de novo!”

Vendo a minha reação e imaginando qual seria a minha próxima pergunta ela acrescentou rapidamente.

 “Pode parecer preconceito meu, mas acho que se esse lugar não fosse tão estereotipado, o preconceito não existiria. Desde criança eu escuto a minha mãe dizendo para eu não passar por aqui, que é perigoso, mas não faço a mínima idéia de onde vem esse pensamento dela. Só sei que continuo evitando passar por aqui.”

Certa de que deveria conhecer melhor o lugar para que eu pudesse escrever, resolvi voltar lá para tirar as minhas próprias conclusões. Estacionei o carro bem longe do meu alvo de estudo e fiquei analisando. Como fazer para que uma área como aquela pudesse ser mais movimentada? Como fazer as pessoas comprarem mais?

Então me lembrei do comentário da mulher que fazia compras nos camelôs quando a questionei sobre o preconceito nessa parte da cidade, ela simplesmente resumiu todo o problema.

“Eu acho que existe preconceito com qualquer comércio que não seja no ‘calçadão’ da cidade” Foi com essa frase que os pensamentos foram encerrados.

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