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homenagem a Bergman (ou, o inverno chegou mesmo)

 

Contra o império do mesmo

Silvio Demétrio 

 

Publicado na

Gazeta do Paraná em 01/08/2007

Esta semana começa marcada pela notícia da morte de Ingmar Bergman. Não poderia ser uma segunda-feira menos gelada e escura como a que se deu em todo o Paraná. Fiquei sabendo da morte de Bergman pela internet – essa bolha de vidro, plástico e silício que nos enjaula no mundo.  É que toda a obra do cineasta sueco se desenvolve numa atmosfera de segunda-feira chuvosa, escura e fria. A metereologia parecia saber disto e fez-se toda em homenagens ao enclausurar a todos, os que conhecem os filmes de Bergman e os que não. De dentro dessa clausura percorri algumas outras fontes para saber mais sobre a notícia e constato que o mundo virtual da informação é o império do mesmo. É o exato mesmo texto da Reuters traduzido e disfarçado em todas as direções e idiomas para os quais se pode ir. No dia seguinte, como que por puro non sense, acontece o mesmo com Michelangelo Antonioni, outro gigante do cinema arte.  Decido então escrever algo em homenagem ao grande mestre Bergman. Escrever e não copiar. Na contramão,- no contraponto do tipo de morte que a cultura do Control+C impõe ao jornalismo e à cultura. Antonioni merece algo em especial. Fiquemos então com Bergman.

Ninguém no panorama da arte contemporânea talvez sirva melhor de antídoto contra o fanatismo e o fundamentalismo religiosos que assolam ocidente e oriente do que Ingmar Bergman. E não é preciso mais do que um filme: “O Sétimo Selo”, sua definitiva expressão do vazio e do não-sentido como resposta à busca por Deus. Com esse filme rodado em 1956 Bergman conquistou o Leão de Ouro em Cannes e a fama internacional. São dele as cenas monumentais em que o protagonista, um cavaleiro das cruzadas, joga xadrez com a morte todas as noites. A fotografia é sublime. E o cavaleiro descobre-se em xeque-mate. Quem ganha é quem sai do cinema para nunca mais se iludir com jogos e artifícios em que se dissimulam a morte e o vazio. A solidão de toda finitude que não encontra respostas. O último lance pelo qual a morte como adversária sempre vence.

Bergman foi ateu até o fim. E não poderia ser diferente com um pai que, sendo pastor luterano, é relembrado em sua autobiografia (“Imagens” – Martins Fontes) como uma figura hostil e agressiva. Essa imagem de um pai vinculado à religião e que significava a constante ameaça de agressão e constrangimentos também perpassa outros momentos da obra de Bergman, como no aclamado Fanny & Alexander de 1982 ou então, uma década depois, no roteiro autobiográfico de “Crianças de Domingo”, que seria dirigido por seu filho Daniel Bergman em 1992. Outra característica do diretor foi a ênfase nos diálogos. O cinema de Bergman se desenvolve preferencialmente no interior de ambientes fechados, o que constrói condições pelas quais os diálogos e a atuação se tornam fundamentais. Bergman sempre manteve uma relação estreita com o teatro, assinando mais de cem produções ao longo de sua carreira.

Certamente foi a primeira cena de Persona, rodado em 1966, a que elejo como a que mais me marcou no contato com esse diretor que sempre revisito.  O filme abre com o lume incandescente do carvão de um projetor que ilumina a antiga sala de projeção do Cineclube do Museu Guido Viaro em Curitiba. No momento seguinte a luz satura-se de forma tal que Bergman filma a própria película sendo rompida e queimada. Isso faz muito tempo, talvez mais de vinte anos. Lembro que foi a primeira vez que entendi o que Brecht queria dizer com estranhamento. Marcar a cena de tal maneira que o público a compreenda como cena, como artifício e não como algo que representa e substitui a realidade. Sem subterfúgios. A nós a realidade.

Não consigo me lembrar se chovia, mas tenho certeza de que não era uma segunda-feira, no entanto me lembro também como se fosse ontem como uma obra de arte pode colocar alguém então com 17 anos a se interrogar sobre o sentido de tudo. Arte não é entretenimento. Saí do Cineclube naquela noite para nunca mais ser o mesmo. Acho que pensava algo como a frase que extraio de O Rito, filme de Bergman de 1966: “jamais deixarei que outro ser humano me assuste”. Certamente aí existe mais alguma sublimação do pai severo na estética de Bergman, mas no meu caso, tomo a frase como uma constatação – ninguém mais depois de Bergman me assombrou com a mesma força. Talvez com ele tenha aprendido minhas fraquezas e vulnerabilidades como ser finito. Principalmente conviver com a falta de respostas. A condição humana em sua essência. Bergman se vai aos 89 anos numa segunda-feira chuvosa, mas seu cinema fica resistindo à morte como documento de uma arte sem igual.

 

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