06
maio
08

O melhor ensaio sobre jornalismo e literatura

Forma é poder

 

(Paulo Leminski)

1

Em práticas de texto, a ênfase no “conteúdo” está ligada a uma certa noção de “naturalidade” na expressão. A forma “natural” é a que revela o “conteúdo” de maneira mais imediata. Preocupações com a “forma” Leminskiobscurecem o “conteúdo”.

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Essa “naturalidade”, porém, só é possível através de um automatismo. Só quern obedece a um automatismo pode ser natural. Isso que se chama “naturalidade” é uma convenção. O natural é um artifício automatizado, uma forma no poder. A despreocupação com a forma só é possível no academicismo.

3

Naturalismo, academicismo. O apogeu do naturalismo (Europa, segunda metade do século XIX) coincide com a explosão do jornalismo. O discurso jorno/naturalista representa o triunfo da razão branca e burguesa: o discurso naturalista é a projeção do jornalismo na literatura.

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O discurso jornalístico é discurso automatizado. Sua automatização decorreu de razões práticas, do caráter de NEGÓCIO que o jornalismo teve desde o início: a necessidade (contábil) de rapidez de redação, num veículo/mercadoria de edição diária, a necessidade de anonimato, sendo o jornal (a empresa) uma entidade impessoal a abstrata.

5

A “enxutez” do discurso naturalista do século X1X é obtida através de uma tremenda repressão exercida sobre a fantasia mítica: é um discurso castrado. A disciplina do discurso naturalista, sua contenção, são calvinistas, puritanas, reprimidas a repressoras (Reich explica).

6

Projetado na literatura, esse discurso “impessoal”, “objetivo” e “natural” é investido de “normalidade”. Na raiz, a palavra “normalidade” indigita sua origem de classe. “Normal” vem de “norma”. Norma é lei: poder. O discurso jorno/naturalista é o discurso do Poder.

7

Esse poder é branco, burguês, greco-latino-cristão, positivista, do século XIX. Daí, as literaturas Latino-americanas, em seu momento de afirmação, privilegiarem as variantes ditas “fantásticas” do realismo.

No discurso jorno/naturalista, o poder afirma, sob as espécies da linguagem verbal, a estabilidade do mundo, DE UM CERTO MUNDO, suas relações e hierarquias. O discurso, esse, em sua aparente neutralidade, é ideológico, embora invisível (ou por isso mesmo): é ideologia pura. Sua estabilidade é catártica: nos consola e engana com a imagem de uma estabilidade do mundo. De UMA CERTA ESTABILIDADE. Uma estabilidade relativa à visâo do mundo de uma dada classe social muito bem localizada no tempo e no espaço.

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Contra a “neutralidade” do discurso naturalista branco, levantam-se os discursos reprimidos das culturas oprimidas, o frenético dinamismo mitológico dos fodidos, sugados e pisados deste mundo. Dinamismo, também, de formas novas.

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A “neutralidade” (objetividade) do discurso jorno/naturalista é uma convenção. Assim como a clareza, apenas uma propriedade (retórica) do discurso. Não há texto literário sem perspectiva, quer dizer, sem intervenção da subjetividade. No texto naturalista (ou jornalístico), essa perspectiva é camuflada, sob as aparências de uma objetividade, uma Universalidade que – supostamente – retrata as coisas “tal como elas são”.

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Invoca-se em vão o nome do realismo, que se procura confundir com o naturalismo. Realismo, quer dizer, discurso carregado de referencialidade, não é sinônimo de naturalismo. Ao contrário. O discurso realists nâo camufla a perspectiva. Realistas (e não naturalistas) são textos como o “Ulysses” de James Joyce. Ou as “Memórias Sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade.

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O naturalismo é incompatível com o experimento. Com a linguagem inovadora. O realismo favorece-os.

13 

A atitude naturalista convencional não enxerga a realidade, no experimento em prosa. Assim como não percebe sentimento no experimento poético. Pois identifica a expressividade com os signos convencionais do expressivo.

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Uma prática do texto criativo, coletivamente engajada, tem a função de desautomatizar. De produzir estranhamento. Distanciamento. É desmistificação da “objetividade” inscrita no discurso naturalista. Essa objetividade é falsa. Ela apenas reflete a visão do mundo de dada classe social, de determinada civilização. Sua pretensão a “discurso absoluto” é totalitária.

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Violação. Ruptura. Contravenção. INFRATURA.  A poesia diz “eu acuso”. E denuncia a estrutura. A estrutura do Poder, emblematizada na “normalidade” da linguagem.

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Só a obra aberta (= desautomatizada, inovadora), engajando, ativamente, a consciência do leitor, no processo de descoberta/criação de sentidos e significados, abrindo-se para sua inteligência, recebendo-a como parceira e co-laboradora, é verdadeiramente democrática.

 

 

Publicado originalmente no suplemento Folhetim, da Folha de S.Paulo em 04/07/1982.

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