01
maio
08

Para entender o projeto

(artigo publicado na Gazeta do Paraná)

Gazeta lança Outra Pauta

Oficina é exclusiva para alunos de jornalismo em Cascavel

Não escrevo contra alguém ou algo. Para mim, escrever é um gesto absolutamente positivo: dizer o que se admira e não combater o que se detesta. Escrever para denunciar é o mais baixo nível da escrita. Em contrapartida, é verdade que escrever significa que algo não vai bem no estado da questão que se deseja abordar. Que não se está satisfeito. Então, eu diria: escrevo contra as idéias prontas. Escrevemos sempre contra as idéias prontas. (Gilles Deleuze)

O projeto Outra Pauta que a Gazeta do Paraná lança agora a partir de março é uma iniciativa pioneira e que acontecerá com a parceria dos cursos de jornalismo que existem em Cascavel. Hoje a cidade conta com três instituições de ensino superior que oferecem a formação acadêmica para o exercício da profissão de jornalista. A Gazeta do Paraná estará oferecendo aos alunos do 3º e 4º anos desses cursos a oportunidade de participar de uma oficina de Jornalismo Literário que será coordenada pelo jornalista e professor Silvio Demétrio.

Ao longo do ano serão formadas três turmas com três alunos selecionados de cada instituição (Unipar, Univel e Fag). Cada turma participará da oficina que durará por um período de quatro meses, totalizando 320 horas de atividades extracurriculares. A programação da oficina é voltada para o desenvolvimento de recursos próprios do Jornalismo Literário. O resultado dos trabalhos será publicado semanalmente em um caderno especial que circulará todas as segundas-feiras.

Podem participar do processo seletivo todos os alunos que estejam matriculados nos cursos de jornalismo das instituições referidas acima desde que comprovem estarem cursando o 3º ou o 4º ano do curso. A data e o local da realização do teste seletivo serão divulgados pela Gazeta do Paraná e as inscrições serão feitas junto às coordenações de cada curso. As questões da prova abordarão conhecimentos gerais (atualidades), ortografia, teorias do jornalismo e redação.

Durante os quatro meses da oficina serão produzidas reportagens especiais a partir de métodos do Jornalismo Literário, vertente que tem na experiência americana do New Journalism e no tipo de jornalismo que marcou época no Brasil com a revista Realidade seus principais referenciais. O jornalismo literário pode ser definido como uma abordagem diferenciada do processo de produção jornalística no sentido que os aspectos formais do texto são tão importantes quanto o conteúdo da matéria. Trabalha-se com uma proposta fundamentada em desautomatizar rotinas, que dentro de uma maneira convencional de se produzir jornalismo, acabam por estereotipar o olhar que o jornalista lança sobre o fluxo dos acontecimentos da vida da comunidade para qual ele escreve. O jornalismo literário também é conhecido como jornalismo narrativo – nos países de língua inglesa é o termo que atualmente se emprega para designar este tipo de prática jornalística. A New Yorker, por exemplo, é uma publicação que trabalha fundamentalmente com este tipo de abordagem. Aqui no Brasil o que mais se aproxima atualmente desse tipo de jornalismo é o que é produzido pela Revista Piauí.

Além dos trabalhos práticos da oficina, o professor Silvio Demétrio estará conduzindo discussões sobre os limites entre fato e ficção, estilo e norma, opinião e informação, especialização e segmentação, além de elementos da formação histórica do jornalismo literário. Ao longo da realização das oficinas serão programadas algumas discussões abertas para todos os estudantes de jornalismo da região a partir da exibição de material áudio-visual sobre os principais marcos na construção dessa modalidade de jornalismo como a obra de Tom Wolf, Hunter Thompson, Truman Capote, O Pasquim, Realidade, entre outros.

REGULAMENTO

  1. A Oficina de jornalismo literário “Outra Pauta” é um projeto da Gazeta do Paraná que não se configura como estágio – visto que tal disposição é contra as normas éticas e legais da profissão.
  2. As atividades desenvolvidas na Oficina têm como objetivo ampliar as habilidades técnicas dos participantes, contribuindo assim com a formação de quadros profissionais qualificados para o exercício do jornalismo. A participação no projeto não representa qualquer forma de vínculo empregatício entre os participantes e a Gazeta do Paraná. Para todos os efeitos, “Outra Pauta” é uma atividade caracterizada como extracurricular para fins acadêmicos. Tal condição se vê assegurada pela vinculação do projeto à presença de um profissional ligado à docência em cursos de jornalismo como responsável pela oficina (Prof. Dr. Silvio Demétrio).
  3. A publicação ou não das respectivas matérias, reportagens e artigos que forem produzidos durante a sua realização ficam condicionadas à aprovação do responsável pela oficina e, numa instância acima, ao editor chefe do jornal e seu diretor geral.
  4. Podem participar alunos que cursam Jornalismo nas três instituições de ensino que oferecem a formação em Cascavel: FAG, Unipar e Univel. A participação fica restrita a alunos que comprovem estar cursando o 3º ou o 4º ano do curso (5º, 6º, 7º e 8º período respectivamente nos cursos semestrais).
  5. A inscrição no teste seletivo, bem como a participação na Oficina são gratuitas.
  6. Serão escolhidos três participantes de cada instituição segundo classificação em prova a ser aplicada em cada instituição pelo responsável pela oficina.
  7. Cada coordenação de curso ficará responsável pela inscrição dos alunos que pretendem cursar a oficina. Os documentos necessários para a inscrição são: formulário de cadastro no teste para a oficina (fornecido pela Gazeta do Paraná) e cópia do histórico escolar.
  8. A prova cobre três áreas indispensáveis: atualidades e cultura geral, ortografia e teorias do jornalismo. Ao todo serão 20 questões (10 de atualidades e cultura geral, 5 de ortografia e 5 sobre teorias do jornalismo). A nota atribuída ao aproveitamento do candidato será estipulada num valor de 0 (zero) a 10 (dez).
  9. O critério de desempate no concurso entre os concorrentes de uma mesma instituição será, em primeiro lugar, o ano ou período que aluno está cursando quando da realização do teste e, como critério definitivo caso o empate persista, a análise dos históricos escolares dos candidatos.
  10. A correção e análise das provas dos candidatos será feita pelo responsável pela oficina.
  11. O resultado do teste será divulgado juntamente com cada coordenação de curso e através do jornal Gazeta do Paraná. Os candidatos selecionados através desse processo poderão então preencher o termo de compromisso que os torna oficialmente inscritos na oficina. O documento tem como síntese a disposição do participante em comparecer em 80% das 320 horas de atividades programadas pela oficina como condição para a emissão do certificado pela Gazeta do Paraná. O certificado será assinado pelo responsável pela oficina, pelo editor-chefe e pelo diretor geral da Gazeta do Paraná.

ALÉM DOS FATOS

Quando a linguagem é a notícia

Jornalismo Literário investe em novas formas de relato

Silvio Demétrio

A proximidade do jornalismo com a literatura sempre foi condicionada por uma gama de fatores muito ampla. A interface entre as duas atividades vai desde a possibilidade para novos escritores garantirem seu sustento, até a necessidade de renovar e aprofundar métodos de representação de um acontecimento tomado como referente real.

O jornalismo literário é um fenômeno que acompanha desde sempre a formação das características pelas quais se define o jornalismo convencional. É possível entender o agenciamento entre os dois campos a partir da separação entre fato e comentário, operada no século XIX com o surgimento dos grandes jornais diários. Até então o jornalismo acontecia como que de uma maneira selvagem, entendendo o adjetivo como sinônimo de espontâneo.

Até o século XIX não havia um conjunto de convenções de como deveria ser um texto jornalístico. As redações abrigavam um sem número de pretenções literárias e, como não havia normas de estilo, a retórica fluía livremente.

A imposição de um modelo industrial de parâmetros de produção textual vai se dar de uma forma natural segundo as necessidades do jornalismo mesmo no quadro das transformações desencadeadas pela Revolução Industrial. Separa-se então o que é fato do que é comentário. O que se chama de gêneros jornalísticos tem sua origem nesta separação. Daí em diante cada vez mais o jornalismo vai contrapor uma linha de desenvolvimento fundamentada na representação do fluxo factual do cotidiano a uma outra linha de reflexão e, portanto, de debate público sobre os significados dos acontecimentos para o público leitor. Nessa segunda linha que comenta os fatos estão compreendidos dois gêneros, o interpretativo e o opinativo.

Por jornalismo literário pode-se entender uma modalidade dessa prática na qual não só o conteúdo é importante, mas também a forma do texto se coloca como uma das preocupações fundamentais. Existe algo que se desprende da obsolescência programada das edições diárias e que fica; a capacidade do jornalismo recriar a realidade com um estilo próprio, construindo com isto um relato cuja propriedade mais destacada é seu estilo de narração. Os grandes momentos da história das reportagens exemplificam isto. Um das produções jornalísticas que atingiu esse nível de excelência na arte de reportar é Hiroshima, de John Hersey – um conjunto de 6 histórias que tem como elemento comum o ataque americano à cidade bombardeada com armas nucleares na II Guerra Mundial. E não se lê o livro-reportagem de John Hersey somente pelo conteúdo, evidentemente importante, é claro. Mas se lê Hiroshima também por seu estilo de narração. Não somente o conteúdo, mas forma de narrar é tão importante quanto.

Existe no jornalismo literário um nível de reciprocidade no qual a linguagem ecoa algo da essência do objeto de exploração da reportagem. É como escreve o poeta chileno Vicente de Huidobro, “não cantar a rosa, mas fazer com que ela floresça no próprio poema”. Jornalismo literário é o jornalismo que investe nas qualidades performativas de sua linguagem. Existe valor literário em qualquer forma de jornalismo que desnaturaliza sua linguagem como forma de aprofundar a recepção de seu leitor através de um estranhamento.

É como no teatro de Bertold Brecht. Se tudo no teatro é representação e, portanto, em alguma medida, fingimento, como então o teatro pode construir alguma verdade com seus próprios meios? Brecht vai responder a esta questão através de uma forma de dramatização que rompe com os princípios do naturalismo. Isto quer dizer que a ênfase migra do conteúdo da peça para a forma de encenação, de como se constrói o artifício teatral. Não dissimular, mas tornar imediatamente reconhecível os elementos teatrais. Principalmente não prometer o real enquanto o que se entrega dele em verdade é uma mera representação. Assim como no teatro brechtiano, o jornalismo literário não se esconde enquanto artifício.

O fenômeno do New Journalism nos EUA durante as décadas de 60 e 70 talvez seja o evento mais visível porque recente dessa maneira especial de desenvolver a prática jornalística. A partir da publicação em quatro partes de In Cold Blood (A Sangue Frio), de Truman Capote, pela revista New Yorker em 1965, a fusão entre técnicas da ficção com jornalismo investigativo numa reportagem vai conquistar notoriedade e fazer escola. Capote escreve jornalismo com as ferramentas da ficção e não dissimula isto. Nos próximos dez anos que vão se seguir à publicação de In Cold Blood uma efervescência de novos jornalistas vai consolidar o estilo. Michael Herr, Richard Goldstein, Raymond Mungo, Hunter Thompson, Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer, Susan Sontag, são apenas alguns dos principais nomes que vão construir o estilo batizado por alguns críticos literários de faction (fact+fiction – fato+ficção).

No Brasil uma das principais referências do jornalismo literário foi a revista Realidade, publicada pela Editora Abril de 1966 até a primeira metade da década seguinte. A influência do New Journalism no estilo de reportagem de Realidade é explorada por João Alexandre Faro em seu livro sobre a publicação. O professor e jornalista Edvaldo Pereira Lima, que tem sua pesquisa como professor da ECA-USP voltada para o livro-reportagem no Brasil, também endossa essa reverberação entre o New Journalism e a revista Realidade. Além dessa aclimatação no jornalismo brasileiro, o New Journalism ainda vai também produzir uma vertente de língua espanhola, o Periodismo Literário de Creación, desenvolvido em larga escala no jornalismo sul-americano por nomes como o argentino Tomás Elloy Martinez e o nobel de literatura, Gabriel Garcia Marques. Ainda na década de 80 um fenômeno editorial na Austrália vai reverberar os mesmos elementos em questão. O Ferret Journalism, versão australiana do New Journalism, vai buscar também um impulso renovador na hibridização de técnicas literárias sobre a produção de reportagens jornalísticas. Por último, a explosão dos blogs mantidos por jornalistas na Web é um fenômeno que tem demonstrado a potência de renovação que o jornalismo pode investir em suas rotinas de produção quando se abre a possibilidade para uma expressão mais livre do profissional de imprensa.

O engenho da palavra

A Oficina de Jornalismo Literário Outra Pauta elaborou uma relação de alguns dos jornalistas-autores que ajudaram a construir uma imagem outra para a profissão de repórter. Obviamente a lista não se pretende exaustiva – ela é apenas uma introdução a alguns dos principais nomes do jornalismo literário.

Tom Wolfe

Tom Wolfe logo cedo manifestou sua inclinação para o jornalismo ao escrever sozinho uma biografia de Napoleão Bonaparte com apenas 8 anos de idade. Sua carreira no jornalismo começa em 1957. Enquanto escrevia sua tese de doutorado na Universidade de Yale, Wolfe foi contratado como repórter do Springfield Union, na cidade de Springfield, Masschussets. Em1959 Wolfe já está trabalhando como repórter do Washington Post. Vai para Nova York em 1962 para trabalhar no New York Herald Tribune. Ao cobrir como free lancer uma corrida de automóveis em pista de terra no interior dos EUA para a revista Squire, Wolfe passou uma noite inteira datilografando em fluxo contínuo suas impressões da pista de corrida. Enviou o material bruto para o editor Byron Dobell, que simplesmente publicou as anotações de Wolfe na íntegra. Foi a entrada de Wolfe para o estrelato como dândi do que mais tarde ele mesmo iria batizar de New Journalism. A seguir Wolfe vai publicar The Eletric Coll-Aid Acid Test – uma reportagem de fôlego profundo sobre o escritor Ken Kesey e o grupo de artistas performáticos que ficou conhecido como os Merry Pranksters. Em 1974 organiza em parceria com Edward Warren Johnson a coletânea de narrativas de não-ficção “The New Journalism” – uma grande amostra de textos de vários jornalistas que tinham em comum um estilo que fundia reportagem jornalística com técnicas de narração literárias.

Truman Capote

Famoso e freqüentador das altas rodas da sociedade nova-iorquina, Truman Capote é quem inaugurou o New Journalism com A Sangue Frio (In Cold Blood). Prodígio e precoce, Capote escrevia disciplinadamente por no mínimo três horas por dia desde os 11 anos de idade. Outra dado peculiar sobre sua personalidade era a capacidade aguçada de memorizar diálogos. Ingressou muito cedo no jornalismo. Com apenas 17 anos Capote já publicava suas matérias na Harper’s Bazaar. Sua fama vem com a ficção Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo), que mais tarde será adaptado para o cinema impulsionando a fama de seu autor. Numa manhã de novembro de 1959 Capote se depara com uma nota sobre o assassinato de uma família inteira no interior do Kansas. Ao se deslocar para as paisagens desoladas das plantações do Kansas, Capote vai produzir durante os próximos 5 anos um trabalho jornalístico exaustivo na investigação da chacina. O resultado é In Cold Blood – livro-reportagem publicado em quatro partes pela New Yorker e que vai dar origem ao estilo da prosa de não-ficção mais tarde batizada por Tom Wolfe de New Journalism.

Hunter Thompson

De longe a figura mais instigante, irreverente e encantadora de toda a aventura do New Journalism. Hunter Thompson foi a própria contracultura traduzida numa forma de escrita absolutamente livre no jornalismo. Thompson foi o criador do chamado Gonzo Journalism – um estilo de jornalismo que se constitui por negar qualquer forma pré-definida do que possa vir a ser considerado como jornalismo. O Gonzo Journalism é a subversão total das convenções jornalíticas. O repórter tem liberdade absoluta de se incluir no próprio relato e também de abrir digressões labirínticas em qualquer direção. Tudo isto é possível desde que se tenha o gênio de Hunter Thompson para encontrar numa corrida de cavalos no Kentucky material suficiente para compor um retrato da decadência da sociedade do sul dos EUA. Depois desta primeira reportagem, a revista Rolling Stone o contratou para uma série de reportagens sobre gangues de motoqueiros. A experiência produziu duas coisas, em primeiro lugar a coletânea dessas reportagens deu origem ao livro “Hell”s Angels – Uma Estranha e Terrível Saga” – no qual Thompson escreve num estilo típico do New Journalism. Em segundo lugar a reportagem resultou numa série de hematomas e machucados decorrentes da surra que Thompson levou quando alguns integrantes da gangue começaram a discordar da publicidade que as matérias estavam projetando sobre os motoqueiros por todo o país. Em seguida Thompson vai lançar Fear na Loathing in Las Vegas (traduzido na edição brasileira por Las Vegas na Cabeça) – seu livro-reportagem mais conhecido e adaptado já na década de 90 para as telas de cinema sob a batuta do diretor Terry Gillian. O pai do Gonzo Journalism suicidou-se em fevereiro de 2005 depois de uma série de cirurgias na região da bacia e que não conseguiram eliminar as fortes dores que vinha enfrentando já há alguns anos. Em função dessa dores Thompson tinha um jeito muito particular de caminhar e que acabou marcando suas últimas aparições em público. Além de Hell’s Angels, Medo e Delírio em Las Vegas, também foram lançados no Brasil seus A Grande Caçada aos Tubarões, Rum Diary – O Diário de um Jornalista Bêbado e Screw Jack.

Norman Mailer

Morto recentemente em novembro do ano passado, Mailer foi ganhador por duas vezes do prêmio Pulitzer com reportagens desenvolvidas segundo as convenções do New Journalism. O primeiro Pulitzer veio em 1968 com a publicação de Os Exércitos da Noite (Armies of the Night) – uma grande reportagem desenvolvida em forma de livro que narra a aventura do próprio Mailer na grande passeata que tinha como plano protestar contra a guerra do Vietnan e que aconteceu em outubro daquele ano. Os participantes da Marcha Sobre o Pentágono cercaram de mãos dadas o prédio central do comando do exército americano. Mailer foi um dos personagens que articulou essa marcha juntamente com os integrantes da SDS (Students for a Democratic Society), os Weathermen (grupo de ativistas radicais que irá entrar logo depois para a cladestinidade) e a banda Fugs, que tinha como integrantes os poetas Ed Sanders e Tuli Kupfberg. Nessa grande reportagem literária Mailer cria o “terceiro ponto de vista” que consiste em projetar-se enquanto jornalista como personagem da própria reportagem. Mailer se torna personagem de Mailer ao se referir a si mesmo em terceira pessoa- o efeito é da ordem do estranhamento, logo do distanciamento crítico do leitor decorrente da exposição auto-referente dos artifícios de linguagem por parte do jornalista. O segundo prêmio Pulitzer – premiação máxima da imprensa americana – vem com A Canção do Carrasco ( The Executioner’s Song). Grande parte de seus livros-reportagem foi editada no Brasil. Mailer também foi fundador de um dos ícones do jornalismo alternativo na américa, o Village Voice, publicação voltada para cultura e política editada em Nova York.

Stephen Crane

Jornalista e escritor americano que morreu muito jovem (28 anos) no final do século XIX. Sua morte aconteceu em decorrência de uma pneumonia que arruinou o estado de saúde de Crane depois de sua mais famosa experiência como repórter do New York World – jornal que pertencia ao mega-empresário da comunicação americana de então, William Randolf Hearst. Neste trabalho como correspondente da guerra de Cuba contra o domínio espanhol no final do século XIX, Stephen Crane se ofereceu para trabalhar na tripulação de uma embarcação que iria levar armas para os revoltosos cubanos. Eis que navegando em direção à ilha o Commodore, embarcação na qual estava Crane, é alvejado por uma esquadra espanhola. O Commodore naufraga e Crane fica à deriva durante mais de trinta horas num barco salva-vidas junto com mais três outros sobreviventes do naufrágio. Do incidente Crane lavra “The Open Boat”, uma reportagem publicada pelo jornal no qual era correspondente. Pouco tempo depois o mesmo relato vai parar numa coletânea de contos de Crane, fazendo com que grande parte da recepção de sua matéria a tomasse como um conto. As qualidades da prosa de Crane são literárias mas voltadas para a representação de um evento real. Esse compromisso é o fundamento principal do jornalismo literário.

Susan Sontag

Nascida em Nova York, assim como Norman Mailer, Susan Sontag também se graduou em Harvard. Sua participação no jornalismo americano dos anos 60 principalmente foi intensa e estrondosa. Tais características a colocaram como musa da nova esquerda militante naquela época e também do movimento feminista. A publicação de “O Que Está Acontecendo em Hanoi” toda sua verve crítica se volta para a denúncia dos abusos e da insanidade da participação americana no conflito do Vietnam. Uma boa compilação de seus escritos de não-ficção está em “Radical Will”, cuja tradução (A Vontade Radical) saiu pela editora Cia das Letras no Brasil. No final da década de 70, depois de viver as dificuldades de um câncer, saiu vitoriosa para escrever A Doença Como Metáfora – ensaio jornalístico no qual Sontag se supera. Uma década depois, já nos anos 80, ela vai escrever aquilo que é será expansão dos mesmos argumentos de seu livro sobre o câncer, agora voltados para a questão da Aids e Suas Metáforas. Sontag aborda em ambos os ensaios a dimensão simbólica das doenças que são vistas de forma estigmatizada pelo senso comum.

Gay Talese

Outro grande nome gerado pelas experiências estilísticas do New Journalism é, sem dúvida, o desse ex-aluno do curso de Jornalismo da Universidade do Alabama. Talese começou ainda na década de 50 como redator na sessão de obituários do New York Times. Eventualmente conseguia publicar algumas reportagens ainda sem assiná-las, como a que fez sobre o aniversário da Times Square, ao entrevistar o responsável pela projeção dos letreiros eletrônicos com as manchetes dos jornais que existia na famosa praça de Nova York. Hoje Talese é professor de jornalismo na Universidade do Sul da Califórnia. Seu artigo mais importante foi o que escreveu sobre Frank Sinatra, no qual narra as dificuldades em conseguir uma entrevista com o cantor. A reportagem com o título de Frank Sinatra Está Resfriado é uma síntese das principais técnicas empregadas pelos novos jornalistas. Um dos artifícios mais característicos de Talese são as cenas in medias res, expressão que em latim siginifica “no meio das coisas”. Abre-se uma narrativa inserindo o leitor diretamente para dentro da ação e, aos poucos, a narrativa passa a desvelar os significados que tornam possível sua compreensão num nível mais aprofundado.

Raymond Mungo

No estudo realizado por Michael Johnson publicado em 1971, o New Journalism é apontado como um estilo específico de literatura de não-ficção desenvolvido tanto por figuras como Tom Wolfe e Norman Mailer, que são vultos da grande imprensa americana, como também por um tipo de jornalismo que se desenvolveu em meios alternativos, especialmente na imprensa universitária. Michael Johnson assim inclui como vertente do New Journalism o Jornalismo Underground, fenômeno que em alguns traços se aparenta com a efervescência brasileira da imprensa nanica durante os anos da ditadura. Nos EUA a imprensa Underground tinha como foco a luta contra a guerra do Vietnam. Raymond Mungo foi o principal jornalista dessa vertente. Fundador do Underground Press Syndicate e da Liberation News Service, é autor de um dos mais bem construídos retratos dessa geração: Famous Long Ago.

IF. Stone

Santo padroeiro de toda a rebeldia que animou o que de melhor se produziu no jornalismo americano do século XX. De origem judaica, Isidore Feinstein Stone é o exemplo do self made man americano. Publicou durante muito tempo seu IF Stone Weekly, jornal que era referência obrigatória no meio de toda cultura de contestação desde os anos que precederam a II Guerra Mundial até as lutas pelos direitos civis dos negros nos anos 60, chegando a se colocar como uma das poucas vozes de dissonância diante do desprezo yuppie pelas causas sociais durante os amargos anos Reagan na década de 80. Stone morreu em 1989 e acumulou um grande número de prêmios internacionais de imprensa. No Brasil foi editada a tradução de O Julgamento de Sócrates e também um de seus artigos numa coletânea de textos publicados pela revista da nova esquerda americana The Nation. Sua voz lendo um de seus artigos sobre a crise de Cuba nos anos 60 pode ser ouvida no álbum Howl, do vanguardista conjunto de cordas Kronos Quartet.

Michael Herr

Quem assistiu a Apocalipse Now de Francis Ford Coppola já teve algum contato com uma narrativa desse correspondente de guerra da revista Esquire, a cidadela de papel do New Journalism. Quem escreveu os monólogos narrativos do personagem vivido por Martin Sheen no filme foi Herr. Ele é o autor do premiado Dispatches, de 1977, no qual narra suas memórias do tempo em que foi correspondente na guerra do Vietnam. Sua proximidade com o cinema também o levou a escrever em conjunto com Stanley Kubrik o roteiro de Full Metal Jacket. Evidentemente sua prosa tem como característica uma forte habilidade em evocar imagens a partir de impressões subjetivas.

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